Perda de veículo

Sinistro automóvel

Reparação excessivamente onerosa

O Editorial Jurídico vem alertá-lo que, em caso de sinistro automóvel, com eventual perda total de veículo, o valor de substituição do veículo automóvel não é sinónimo de valor venal, ou seja o valor de substituição não é igual ao valor venal.

A lei e a jurisprudência entendem que valor venal é o valor comercial do veículo, o mesmo será dizer o valor de mercado ou valor de venda do veículo.

Fonte ipconsult.pt

Já o valor de substituição é entendido como o valor de compra do veículo. Portanto, o valor de venda não é o valor de compra, sendo este, o valor de compra, o valor que o sinistrado, isento de culpa no sinistro, teria de pagar para comprar um veículo com idênticas caraterísticas e qualidades possuídas pelo seu veículo sinistrado.

Sobre esta matéria versa o acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, processo 67/15.7T8TVD.L1-2, de 15.12.2016, decidiu em sentença que a reparação de um veículo sinistrado só é excessivamente onerosa se ficar provado que o seu valor, adicionado ao valor do salvado, é superior, em princípio, em mais de 20% ao valor de substituição por um veículo com idênticas características e não ao valor venal ou comercial do mesmo.

Melhor explicitando, após o sinistro e respetiva participação, a seguradora do causador e responsável pelo acidente de viação (sinistro) propôs-se pagar ao sinistrado a quantia de 2.547€, tendo em conta que o veículo tinha um valor de mercado de 3.000€ e que o orçamento para reparação do veículo ascendia a 6764,91€.

O sinistrado discordou da proposta e intentou ação contra a seguradora do responsável pelo sinistro.

Em sentença, após o julgamento da ação intentada pelo sinistrado (autor), o tribunal condenou a seguradora (ré) a pagar ao proprietário do veículo sinistrado a quantia de 5.556,33€, relativa ao valor provado da reparação do automóvel.

A seguradora discordou da sentença daquele tribunal e recorreu para o Tribunal da Relação de Lisboa (TRL) defendendo que aquele tribunal devia ter configurado a existência de uma situação de perda total do veículo no montante de 3.000 euros.

Fonte oseguroautomóvel.pt

O TRL negou provimento ao recurso, isto é não deu razão à seguradora, ao decidir que a reparação de um veículo sinistrado só é excessivamente onerosa, dispensando a seguradora do seu pagamento, se ficar provado que o seu valor, adicionado ao valor do salvado, é superior, em princípio em mais de 20%, ao valor de substituição por um veículo com idênticas características e não ao valor venal ou comercial do mesmo, como já se disse.

O lesado tem direito à reparação do seu veículo, em reconstituição natural, exceto se a seguradora alegar e provar que essa reparação é excessivamente onerosa.

E a reparação é excessivamente onerosa comparando o valor da reparação e o valor de substituição que é o valor que o lesado teria de pagar para comprar um veículo da mesma marca, modelo, ano de construção, equipamento, estado de conservação e quilometragem. Se a diferença for excessivamente onerosa ou significativa, isto é, se o valor da reparação, adicionado ao valor do salvado, for superior a 20% ao valor de substituição, entende a lei que em princípio a reparação é excessivamente onerosa.

Lê-se no TRL de 15.12.2016 que “Depois de um regime claramente inconstitucional, por favorecimento das seguradoras, introduzido pelo DL 83/2006, de 03/05, o legislador fez marcha atrás com o art. 41/2 do DL 291/2007, de 21/08, pondo-o, na parte que importa agora, de acordo com as normas do Código Civil (principalmente dos seus arts. 483.º, 562.º, 563.º e 566.º); isto, embora com uma redacção que pode confundir as coisas por identificar o valor venal do veículo (que antes se considerava igual ao valor da venda no mercado do veículo) ao valor de substituição.

 Portanto, aplique-se um ou outro regime, a solução para o caso acaba por ser igual: o lesado tem direito à reparação do seu veículo – reconstituição natural – excepto se a seguradora alegar e provar que a reparação é excessivamente onerosa (art. 566.º/1 do CC).

E a excessiva onerosidade comprova-se com a comparação entre o valor da reparação e o valor de substituição que é o valor que o lesado teria de pagar para comprar um veículo que fizesse as vezes do seu, estragado pelo acidente, ou seja, o valor que terá de pagar para comprar um veículo da mesma marca, modelo, ano de construção, equipamento, estado de conservação e quilometragem.

Se houver uma diferença significativa (e para a concretização deste conceito pode-se utilizar o critério do art. 41 do DL 291/2007) – como por exemplo se o valor da reparação (adicionado ao do salvado) for superior a 20% ao valor de substituição – entende-se, em princípio, que a reparação é excessivamente onerosa.”

Acórdão do TRL em http://www.dgsi.pt/jtrl.nsf/33182fc732316039802565fa00497eec/2026a729512ffcec802580b100596c4b?OpenDocument, neste sentido segue o acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 19/02/2015, proc. 1306/13.4TBMCN.

Caso o leitor se depare com situação idêntica o Editorial deixa-lhe aqui a nota, em caso de eventual perda total de veículo, o valor de substituição do veículo automóvel (valor de compra) não é sinónimo de valor venal (valor de mercado ou de venda).

Atente para que não resulte prejudicado.

Publicado por

editorial

Helena Navalho é jurista. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras e em Direito pela Faculdade de Direito (Universidades de Lisboa) e vem falar da ferramenta jurídica que está presente no quotidiano do cidadão comum.

2 comentários em “Perda de veículo”

  1. Boa noite precisava de ajuda neste campo, uma vez que o veiculo do meu marido, reparado recentemente fez parte de um acidente, onde o outro interveniente para além de ter embatido no nosso veiculo ainda abandonou o local do acidente sem se preocupar se as pessoas que iam dentro do carro se encontravam bem ou não. Portanto, neste caso não temos qualquer culpa do acidente, o valor que a seguradora nos propôs foi bem abaixo do que estavamos á espera. Uma vez que a culpa não foi nossa, estamos sem carro desde o dia 15.09.2017 e o individuo do outro carro foi encontrado mais á frente com 2.13 de alcool no sangue. Achamos muito injusto o valor que nos foi proposto. Para uma melhor informação haverá alguma forma de podermos entrar em contacto consigo, para nos poder ajudar de uma forma mais pessoal?? Obrigada

    1. Olá Maria I. M. Costa, essas situações são sempre muito injustas, especialmente quando o veículo está em muito bom estado. Quando o veículo tem perda total o valor de substituição é entendido como o valor de compra do veículo: o valor de venda não é o valor de compra. O valor de compra, é o valor que o sinistrado, isento de culpa no sinistro, teria de pagar para comprar um veículo com idênticas caraterísticas e qualidades possuídas pelo seu veículo sinistrado. Por isso é que o acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, processo 67/15.7T8TVD.L1-2, de 15.12.2016, decidiu em sentença que a reparação de um veículo sinistrado só é excessivamente onerosa se ficar provado que o seu valor, adicionado ao valor do salvado, é superior, em princípio, em mais de 20% ao valor de substituição por um veículo com idênticas características e não ao valor venal ou comercial do mesmo. Tente bater-se por isto junto da seguradora do condutor culpado. E depois informe.

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